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terça-feira, 8 de março de 2016

No Dia Internacional da Mulher...


...vai a nossa homenagem a todas as nadadoras de todos os esportes, batalhadoras e guerreiras, as quais lutam por um lugar ao sol neste machista mundo do esporte.
E também uma boa notícia para os fãs de Ana Marcela Cunha (Unisanta): ela será a próxima protagonista da série Mulheres Espetaculares, do Esporte Espetacular. A repórter Juliana Sana está em Santos para acompanhar, com a equipe do programa esportivo dominical, três dias de treinos com a bicampeã do Prêmio da FINA de melhor maratonista aquática feminina do mundo e única brasileira campeã do MUNDIAL DE ESPORTES AQUÁTICOS de Kazan, ano passado, nos 25 km, para tentar cumprir o desafio de nadar junto com Ana.
Afinal, para quem treinou MMA com Bethe Correa e motocross com Maiara Basso, ela deve tirar de letra. Mas, em breve, saberemos se ela conseguiu.

(foto e informações da Assessoria de Imprensa da Unisanta)

quinta-feira, 12 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD (parte 9 - por Patrícia Angélica)

Não há dúvidas de que as nossas nadadoras, sim, são belas. Mas a mídia, algumas vezes, só vê a beleza exterior delas, e não valorizam seus resultados. É isso que Patrícia Angélica vai analisar hoje, nesta nona parte da série especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, originalmente publicada pelo Loucos por Natação em 2013: a relação das nadadoras com a imprensa.

O esporte vive de ídolos. A mídia vive de notícias. Ídolos geram notícias. No entanto, a relação entre a mídia e esses ídolos nem sempre é fácil.
Se quando competem e ganham medalhas e campeonatos, elas querem dar entrevistas, quando as coisas não parecem ir bem, se escondem da imprensa. Muitas vezes também é possível perceber o descontentamento de atletas com a forma como suas declarações saem na imprensa. Certa vez, a mãe de um nadador disse que odiava jornalistas porque "quando você fala chuchu, eles escrevem abobrinha". Noutro momento, um nadador, que saiu insatisfeito de sua prova, ao passar pela imprensa e ouvir uma pergunta sobre o que achou do tempo marcado, disse, sem sequer olhar para os repórteres, que tinha achado "uma b...". Quando viu suas palavras publicadas em um site, ficou com raiva do repórter.
No entanto, as atletas femininas enfrentam outro problema: o rótulo de musas. As nadadoras circulam pelos locais de competição usando sunquínis e maiôs sempre apertados e que muitas vezes ficam um pouco transparentes. Por isso, não é raro ver, durante eventos, galerias de fotos nos mais diversos sites que mostrem os atributos físicos das atletas.
Foi o caso de Mariana Brochado (foto) logo após o Pan de Santo Domingo, em 2003, quando foi eleita, na internet, a musa do Brasil. O rótulo no início a incomodava, pois as pessoas prestavam mais atenção em sua beleza do que nas medalhas conquistadas, mas acabou a ajudando: "[o rótulo de musa] abriu algumas portas, principalmente com relação a patrocinadores, pois para eles é ótimo ter um rostinho bonito e algum talento no mesmo pacote", contou ela em entrevista realizada no prédio da TV Globo, no Jardim Botânico.
Joanna Maranhão admite o dilema entre a fama e o desconforto, A beleza da atleta pode lhe abrir caminhos para patrocínios e outras formas de ganhar mídia. No entanto, a nadadora se lembra de um episódio desagradável que aconteceu com uma companheira de Seleção, nos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas: "na hora que a Flavia [Delaroli] foi entrar na piscina, um fotógrafo deu zoom no bumbum dela, tirou a foto e publicou no site. E foi uma coisa super chata entre ela e o marido dela porque ele viu a foto no site".
De todas as atletas entrevistadas, a que mais parece se incomodar com os rótulos da imprensa é Daynara de Paula, em depoimento durante o Troféu Maria Lenk de 2013. Ela comenta a polêmica que aconteceu logo depois dos Jogos de Londres em 2012, quando Thiago Pereira acusou a vaidade das nadadoras de ser a maior culpada pela falta de resultados: "Em Londres [durante os Jogos Olímpicos], não perguntavam como eu tinha treinado ou como eu tinha nadado. Perguntavam da minha unha, do meu cabelo. Aí os meninos falam que a gente é muito vaidosa, mas vaidade não deixa de dar resultado, primeiramente. E além do mais são vocês [jornalistas] que perguntam. A gente só responde. Deveriam começar a fazer perguntas mais sérias pra gente, mas os jornalistas ficam rotulando a gente como vaidosas. A gente até é vaidosa, mas também é atleta".
 Um dos desafios das nadadoras – que também  pode ser visto como tabu – é com relação às formas do corpo. A costista Fabiola Molina conta que por muito tempo as mulheres deixaram de fazer trabalhos de musculação por medo de ficar com o corpo masculinizado: "Sempre houve o mito que a natação deixava a mulher forte e masculina, e as pessoas ainda acham que mulher nadadora tem as costas largas. Eu sou nadadora e não tenho as costas largas. Isso mistificou várias gerações, para não se fazer muita força e não ficar forte".
 Além do aspecto físico, há ainda a questão do doping. Com a ingestão involuntária ou não de diversos tipos de hormônios, muitas atletas acabaram ficando com aparência brutalizada. No Brasil, o caso mais emblemático foi o de Rebeca Gusmão. A ex-nadadora, hoje jogadora de futebol e praticante de halterofilismo, foi medalha de ouro nas provas dos 50m e 100 livre no Pan-2007. Mas em novembro do mesmo ano, exames anti-doping feitos durante a competição continental acusaram a presença de anabolizantes. Depois de diversos julgamentos e recursos à Corte Arbitral do Esporte, Rebeca foi banida da natação em 2009 (N. E.: atualmente, Rebeca, novamente casada, é assessora de imprensa do Governo do Distrito Federal, e aparece muito na mídia mais por ter recuperado o corpo antes dos anabolizantes, sendo, inclusive, forte candidata a uma edição da Fazenda, da TV Record).
Antes disso, entre as décadas de 1960 e 1980, ocorreram escândalos de doping relacionados a atletas de vários países, principalmente no então bloco comunista. Na época, havia poucos recursos para investigação, mas ao longo dos anos atletas confessaram a manobra e a imprensa também investigou diversos casos a fundo. O caso mais importante desse período ganhou o nome de "fábrica de recordes", quando a preparação irregular das nadadoras Kornelia Ender, Barbara Krause e Carola Nitschke, da Alemanha Oriental, que ganharam medalhas e bateram recordes nos anos 1970, veio à tona na década seguinte.
Kornelia, então dona de oito medalhas olímpicas nas edições de Munique-1972 e Montreal-1976, revelou receber injeções de hormônios desde os 13 anos. Barbara, que foi três vezes campeã olímpica e dona de oito recordes mundiais, foi retirada dos Jogos de 1976 pelos médicos da delegação que ficaram com medo do flagrante no anti-doping por terem calculado mal a dosagem hormonal da atleta. Já Nitschke, que também recebeu injeções de substâncias proibidas desde os 13 anos, foi a primeira atleta desse período a devolver as medalhas conquistadas e pedir que seu nome fosse retirado dos livros de recordes, em 1998.  
E os jornalistas, como encaram essa relação?
Para Guilherme Freitas, jornalista sênior da revista Swim Channel, que falou por e-mail, a "imprensa brasileira só dá destaque para quem vence no cenário internacional", o que reduz a chance de as nadadoras aparecerem na imprensa, uma vez que poucas sequer chegam a finais em competições desse âmbito.
Freitas acredita que a questão cultural pesa quando se fala de mulheres atletas. Segundo ele, há uma grande carga de machismo na abordagem do tema. "Muitos homens não gostam de mulheres atletas ou não aceitam ver uma mulher ganhando títulos e medalhas".
Já Beatriz Nantes, também contactada por internet, ex-nadadora e jornalista que administra o site Esporte Em Pauta, acha que a natação feminina do Brasil "tem uma cobertura que não está focada no resultado. Joanna Maranhão, por exemplo, tem tanta cobertura quanto muitos homens, mas muito pelas declarações 'polêmicas', que a imprensa sabe explorar muito bem. A diferença está no tratamento, que tem a ver com essa coisa de ser musa, ou de pegar um aspecto peculiar ou um ponto da pessoa".
O repórter Marcel Merguizo, da Folha de S. Paulo, aponta que as atletas refletem um ideal de mulher moderna. Ela, agora, pode - e deve - "suar, correr, lutar, brigar" (fenômeno que os antropólogos denonimam de "estereótipo de Lara Croft",  personagem de videogame, que foi personificada no cinema por Angelina Jolie), coisa que não poderia antigamente, mas que, além de tudo, "é sensual".
Em compensação, a repórter da CBN e ex-nadadora Mayra Siqueira não vê   problemas nessa relação. "Se as nadadoras estão sendo mais focadas como símbolos de beleza é porque os resultados na piscina não estão vindo". Segundo Mayra, a exploração da imagem das mulheres atletas é consequência de seus resultados. “Muitas vezes esse marketing é financeiramente benéfico em forma de patrocínios".
No entanto, o maior desafio da relação entre a imprensa e os nadadores reside na própria CBDA. Em maio de 2013, a Confederação fez uma palestra e um media training com os jovens atletas (em média com 17 anos) que participariam em agosto do Mundial Junior de Natação, em Dubai. No treinamento, segundo reportagem de Julian Romero para a Best Swimming, os profissionais da imprensa eram descritos, entre outras coisas como "'é jornalista 24h por dia', 'vive em busca do furo', 'gosta de conflito, de opiniões divergentes', 'acredita agir em nome do interesse público', 'é curioso, detalhista' e 'repórter cada vez mais jovem e generalista'". Se não bastasse esse tipo de preconceito para deixar esportistas tão jovens na defensiva com relação à imprensa, indicações de conduta quase repressiva indicavam a "abstenção de comentários negativos na imprensa sobre o clube, CBDA, patrocinadores".
Na mesma linha de tolher as entrevistas dos atletas, outras instruções envolviam recomendações do tipo "'seus atos e declarações serão 'lidos' como a posição oficial da Confederação', 'tenham definidas claramente as mensagens a serem passadas aos jornalistas', 'evite que as opiniões/posições pessoais gerem conflito/polêmica com o clube e a Confederação', 'as questões e os pontos de vista diferentes devem ser debatidos internamente, e não pela imprensa'".
Para que a relação entre a mídia e as nadadoras chegue ao ponto ideal de unir marketing, patrocínios e outros benefícios para as atletas e não se converta apenas em exploração e audiência de programas e sites, é preciso que haja mais resultados sob a forma de medalhas e destaque em competições internacionais.

Bem, eu sinceramente acho que por trás de um fast também bate um coração, não é verdade?
A série dá uma parada hoje e volta segunda-feira, com os perfis especiais de algumas das melhores nadadoras do Brasil e do Mundo.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

terça-feira, 10 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD (parte 8 - por Patrícia Angélica)

Raras são as mulheres que seguiram o caminho de ser coaches, mas existiram. E hoje, na nossa série especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher (originalmente publicada pelo Loucos por Natação em 2013), Patrícia Angélica destaca algumas delas, com a ajuda de especialistas.

Se as mulheres não são unanimidade dentro das piscinas brasileiras, são menos ainda fora delas. Em toda a nossa história, que começou a ser contada por duas mulheres importantíssimas, só uma mulher teve destaque como treinadora: Rosane Carneiro, que levou Kaio Márcio aos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e ajudou Joanna Maranhão na empreitada para os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara 2011 e Olímpicos de Londres 2012.
Alex Pussieldi, comentarista de natação do canal especializado SporTV, define que as mulheres encaram uma questão cultural e histórica para assumir os cargos de comando no esporte: "a mulher ainda não se estabeleceu como técnica, não só na natação, mas também nos outros esportes. A autoridade da mulher ainda é discutida. É um problema histórico, de mentalidade. São barreiras a serem rompidas".
Já o técnico do SESI-SP, Fernando Vanzella, considera a questão um problema mundial. "Não é só no Brasil. Em campeonatos internacionais, mundiais, jogos olímpicos, a presença masculina nesses cargos de treinador e supervisor é muito mais significativa. Mas elas têm espaço, sempre tiveram oportunidade".
Mas se o assunto são as mulheres treinadoras, vamos dar a palavra a carioca Rosane Carneiro, formada em Educação Física pela UFRJ que treinou dois grandes atletas olímpicos do Brasil: Kaio Márcio e Joanna Maranhão, dentre tantos outros. Ela é a única mulher brasileira que foi a Jogos Olímpicos como treinadora de natação. Trabalhou por 24 anos na natação de alto rendimento e hoje, depois de concluir uma pós-graduação em Administração e Marketing Esportivo na Universidade Gama Filho, trabalha em uma empresa de gestão de carreira de atletas. Para ela, esse tempo é de aprendizado. "Chega de ser bombeira", desabafa, referindo-se aos dois últimos trabalhos como treinadora, quando aceitou o desafio de levar Kaio Márcio a uma final olímpica nos Jogos de Pequim em 2008 e ajudar Joanna Maranhão na disputa do Pan-2011 e Londres-2012.
Depois de parar de trabalhar com a natação de alto rendimento em 2003, foi desafiada pelo nadador Kaio Marcio, especialista nos 200m borboleta, a ajudá-lo a ir ao Pan do Rio, em 2007 e aos Jogos de Pequim, em 2008. Foi este desafio que fez dela a primeira e única mulher a estar presente na comissão técnica brasileira em Jogos Olímpicos. Com Joanna, o desafio foi maior: "Depois de terminar o trabalho com Kaio,] fui fazer Pós em Administração Esportiva, e no meio do meu caminho, cai de paraquedas Joanna Maranhão, sem clube e técnico faltando três meses para o Pan de Guadalajara e cinco para a seletiva olímpica de 2012. No início, não quis de jeito nenhum, porque já estava em outra e não queria mais estar nesse sistema que a natação se transformou. Fiz os milagres de que ela precisava, e, infelizmente quando completaríamos um ano de trabalho no auge dos Jogos de Londres, ela se acidenta [Joana teve um desmaio na manhã de sua principal prova, os 400m medley, cortou o supercílio e não pôde competir]. Ali terminavam minhas obrigações com ela".
No entanto, Rosane, em depoimento por Skype, parece não gostar muito do rótulo de ter sido a principal treinadora da natação brasileira. "As entrevistas de [Pequim] 2008 eram só sobre 'a primeira treinadora olímpica da seleção de natação'. Numa delas, eu disse: 'não sei para que tanto alvoroço! Por que não falam sobre o técnico do vôlei feminino, que é um homem?”
Sobre o motivo de pouquíssimas mulheres conseguirem se sobressair no esporte, Rosane é bem direta: "as mulheres que querem trabalhar com Educação Física, trabalham em escola, academia ou em categorias de base. Acham que mulher tem 'lado materno' para isso. Na época em que fui técnica de base, havia muitas mulheres no mirim, petiz e infantil. Hoje, nenhuma delas está na borda da piscina".
Rosane considera difícil para uma mulher ser treinadora acima da categoria juvenil, quando os atletas passam a fazer treinos duplos e aumenta a cobrança por resultados, em busca de índices para campeonatos mundiais e jogos olímpicos. "As técnicas começam a dar mais valor a sua vida pessoal e acabam não conseguindo conciliar trabalho e família. Elas procuram assim as categorias inferiores que têm 'menos' responsabilidades e compromissos". A ex-treinadora acha que teve sorte, pois ficou em um clube até o infantil, mudando de categoria junto com seus atletas e subindo de categoria aos poucos.
Se dentro das piscinas temos a chegada de uma nova safra, não parece que isso esteja perto de acontecer do lado de fora. Pode-se contar nos dedos os nomes das treinadoras presentes em campeonatos brasileiros, sejam de categoria ou absolutos: temos Juliana Machado (do Esporte Clube Pinheiros), Adriana Mitidieri (do Minas Tênis Clube) e mais uma ou duas. O trabalho dos nossos treinadores é excelente, mas as mulheres precisam começar a tomar a frente, como já fazem no mundo empresarial, por exemplo.

Atualmente, Tatiana Lemos Barbosa ocupa o cargo de assistente técnica em Myrtle Beach, Florida, e pode seguir por este caminho.
Amanhã, segue a nossa série, com uma pergunta: o que sente uma nadadora sendo apenas vista como "musa"?

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

segunda-feira, 9 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD? (parte 7 - por Patrícia Angélica)

E continua a nossa série especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Hoje, Patrícia Angélica conta sobre um terreno ao qual as nossas nadadoras dominam: as maratonas aquáticas, às quais, inclusive, temos as atuais campeãs mundiais. Vamos relembrar essa história?

Enquanto nas piscinas existe uma dificuldade enorme de se fazer resultados em nível mundial, nas águas abertas a história é diferente. A paulistana Poliana Okimoto do Minas Tênis Clube (N. E.: ela atualmente é da Unisanta) e a soteropolitana Ana Marcela Cunha do SESI-SP já foram campeãs do Circuito Mundial de Maratonas Aquáticas O circuito Mundial ocorre em diversas cidades ao longo do ano. Os campeões são definidos por uma pontuação através de medalhas e outros critérios). Mas a que se deve o surgimento desses dois talentos?
O comentarista de natação do SporTV Alexandre Pussieldi elogia o trabalho feito pelas duas estrelas da modalidade, mas também vê nelas, assim como em toda a natação brasileira, algo isolado. "O Brasil saiu na frente com relação à natação em águas abertas, mas não foi feito nenhum trabalho de renovação depois da Poliana e da Ana Marcela. Então, depois que essas duas meninas saírem, vamos ficar sem ninguém".
Poliana Okimoto, de 30 anos, foi a primeira nadadora brasileira a ganhar uma medalha em Campeonato Mundial e que abriu as portas da maratona aquática no Brasil. Seu bronze nos 5km do Mundial de Roma em 2009 foi histórica. Hoje, ela conta com patrocínios e apoio dos Correios e do Time Brasil (do COB), por exemplo, para dar continuidade aos treinos e às competições, mas conta, em entrevista no Troféu Maria Lenk, que o início foi complicado: "por muitos anos, o Ricardo [Cintra] foi meu técnico, psicólogo, massagista, fisioterapeuta, tudo. O começo foi muito difícil".
O técnico e marido de Poliana, Ricardo Cintra, explica, em conversa durante o Troféu Maria Lenk, em abril de 2013, que não há grandes segredos no treino cotidiano de maratona aquática, mas que as competições são o melhor treino para a modalidade. Para ele, a maior dificuldade está em conciliar as provas em águas abertas que ajudam a atleta na própria preparação e aquelas em piscina, que valem pontos para o clube, nos campeonatos. "Nosso foco é a maratona aquática, mas ela continua nadando piscina porque é importante para o clube que ela representa. Nesses últimos anos, os resultados dela em piscina foram muito aquém do que ela poderia fazer, mas eu tenho que rebolar aí pra conciliar os dois".
Os dois explicam que quase não há treinos feitos no mar. "Quando morávamos [Cintra e Poliana] em Santos, uma vez por semana, nadávamos no mar. Agora que estamos em São Paulo ficou um pouco mais difícil, mas tem bastantes competições e  usamo-nas [para efeito de treino]".
Isso poderia mudar, se a CBDA incluísse nas grandes competições - como Troféu Maria Lenk, Troféu José Finkel, Open e outras - uma etapa de provas em águas abertas para atrair os clubes. Uma proposta nesse sentido foi incluída na Assembleia Geral da Confederação em março de 2013, mas foi recusada. "A natação depende dos clubes. E a maratona aquática é totalmente fora de clube. Os atletas sobrevivem de incentivos, de patrocínio. Quando conseguem, são pouquíssimos clubes que investem neste tipo de competição. Colocar a maratona aquática junto com o Maria Lenk, por exemplo, valendo ponto para os clubes e junto ao calendário da natação vai ser um grande incentivo, vai também trazer atletas da piscina pra a maratona. Os clubes que tiverem atletas de fundo e de maratona vão querer ter mais e os que não têm vão começar a pensar em ter", defende Poliana Okimoto (N.E.: houve uma tentativa no Troféu Maria Lenk, em São Paulo, em 2014, mas, apesar do bom número de nadadores, a ideia não foi à frente).
A outra grande estrela da maratona aquática, Ana Marcela Cunha, campeã mundial da prova de 25km no Mundial de Xangai em 2011, fala, em bate papo no mesmo evento, que sempre nadou no mar e que isso é comum na Bahia, estado em que nasceu. E, como nadadora de águas abertas, acaba usando competições como parte dos treinos e comemora cada oportunidade de duelar com Poliana. "Faço o Circuito Paulista e o Circuito Brasileiro para treinar para a Copa do Mundo e o Campeonato Mundial. É bom quando a Poliana também compete porque dá para fazer treinos mais fortes".
Portanto, é perceptível que não existe nenhum tipo de trabalho diferenciado nas maratonas aquáticas do Brasil. Como as próprias atletas e seus treinadores deixam claro, se elas hoje estão em posição de destaque no cenário mundial, é fruto de um trabalho individual. Se hoje elas contam com patrocínios e apoios, é porque um dia acreditaram no próprio talento e investiram nele.
Assim é no país: o esporte sobrevive de escassos talentos individuais que surgem e se destacam pelo famoso paitrocínio (expressão usada pelos atletas e seus familiares para indicar que quem "patrocina" o desenvolvimento do nadador são os pais). E então as confederações e as empresas resolvem "investir" nesses talentos, quando eles chegam ao auge.
No dia 20 de julho de 2013, na prova de 5 km das águas abertas do Mundial de Barcelona, Poliana Okimoto e Ana Marcela Cunha fizeram a primeira dobradinha da história da natação feminina em mundiais. Poliana, com a medalha de prata, e Ana Marcela, com a de bronze, mostraram mais uma vez que em maratona aquática as nadadoras brasileiras são referência mundial. Na mesma competição, três dias depois, as duas repetiram a dobradinha. Desta vez nos 10km e mudando as cores das medalhas: Poliana, que nos Jogos de Londres abandonou a prova, venceu a disputa e ganhou a de ouro. Ana Marcela ficou em segundo lugar, com a medalha de prata.
No dia 25 de julho de 2013, ainda durante as provas de águas abertas do Mundial de Esportes Aquáticos de Barcelona, Poliana conseguiu mais um feito inédito: ao lado do baiano Allan do Carmo, de 23 anos, e do gaúcho Samuel de Bona, de 22,  nadadora disputou pela primeira vez a prova dos 5km por equipe e conseguiu a medalha de bronze, atrás apenas das equipes alemã e grega. Neste Mundial de Barcelona foi a segunda vez que a prova fez parte do programa, depois de ser incluída no Mundial de Xangai em 2011.

Atualmente, Ana Marcela é campeã mundial e a tendência é que ela continue no ótimo caminho, assim como Poliana, Gabriela Cordeiro Ferreira (GNU), Betina Lorscheitter (GNU), Catarina Ganzeli (Unisanta) e as novatas Vivane Jungblut (GNU), Mariana Serrano Souza (SESI) e Bruna Primati (SESI).
Amanhã, segue a série, com a possibilidade de mulheres treinadoras.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

domingo, 8 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD (parte 6 - por Patrícia Angélica)



Seguindo com a série especial da Semana da Mulher, assinada por Patrícia Angélica, hoje falaremos de uma nova geração então promissora, e que agora tornou-se realidade.

Mesmo com tantas nadadoras deixando o esporte, uma nova geração está vindo aí e elas prometem mudar a história do esporte. Com a promessa da Confederação em intensificar o apoio, Graciele Herrmann, Alessandra Marchioro, Beatriz Travalon e Etiene Medeiros querem chegar na frente.
Graciele e Alessandra emocionaram o Parque Aquático Maria Lenk ao se classificarem para os 50m livre do Mundial de Barcelona 2013, em abril no Troféu Maria Lenk, disputado no Parque Aquático de mesmo nome em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. As duas fizeram marcas próximas à barreira dos 25 segundos, 25.10 e 25.17 respectivamente. A única brasileira a nadar abaixo dos 25 segundos foi a mineira Flavia Delaroli, com 24.98, em 2009, ainda hoje recorde brasileiro da prova (N. E.: não é mais. Hoje o recorde é de Etiene Medeiros, 24.74, também recorde sulamericano. Sem contar que Graciele fizera 24.76 no TROFÉU MARIA LENK do ano passado, em São Paulo).
A expectativa é que as duas possam superar esse tempo, e, dessa forma, se aproximem mais das tops do mundo. O recorde mundial da prova é 23.73, feito por Britta Steffen, no auge dos trajes tecnológicos, em 2009, mas a marca é dificilmente alcançada hoje em dia. A campeã olímpica de 2012, Ranomi Kromowidjojo, venceu a prova em Londres com o tempo de 24.05.
Beatriz Travalon, de 20 anos, integra o revezamento medley da mesma competição na Catalunha na última semana de julho de 2013. Com seu tempo de 1:09.32, ela foi a primeira brasileira a nadar abaixo de 1 minuto e 10 segundos depois que maiôs tecnológicos foram banidos da natação. A atleta não criou grandes expectativas com seu tempo. Como forma de se blindar de uma pressão que ela diz nunca ter sofrido – "nunca esperaram nada de mim" – Beatriz planeja um passo de cada vez. "Dependendo do resultado que tenho em casa competição, penso na próxima competição, na próxima etapa. Eu tenho que ver cada degrauzinho por vez. Não posso querer pular um lance de escada", como explicou em entrevista durante o Troféu Maria Lenk.
A pernambucana Etiene Medeiros, de 22 anos, é considerada a herdeira das provas de costas, agora que Fabiola Molina está se retirando das piscinas. Sua marca nos 50m costas - 27.88 - lhe rendeu um lugar no top 10 do ranking mundial (N.E.: atualmente ela é recordista mundial nos 50 costas em piscina curta, 25.67). No entanto, a nadadora tem raízes que a ligam a um grande nome da modalidade. Ela começou a nadar no Clube Português de Recife, junto com Joanna Maranhão e tutelada por Nikita. Segundo Etiene é muito bom ver a ex-colega de clube (Joanna voltou a treinar com Nikita, mas Etiene hoje está no SESI-SP) ainda nas piscinas: "sempre tive exemplos ao meu lado e Joanna é um deles. Fico muito feliz de vê-la fazendo resultado, porque ela sempre vai ser um exemplo na natação brasileira". 
As esperanças atualmente são grandes, não apenas pelas ações da CBDA, mas pela forma como as atletas têm encarado o esporte, como assinala Ricardo de Moura, supervisor técnico da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos: "o comprometimento das meninas tem aumentado bastante. Não tenho dúvidas de que esse é um dos princípios básicos pra que o esporte se desenvolva".

Atualmente, as grandes promessas da natação são Jhennifer Alves da Conceição (Flamengo), que chegou perto de superar o 1:10 no Open do Rio, Maria Paula Heitmann (Minas), que chegou perto da vaga para o Mundial Júnior de Singapura nos 200 livre, e a maior de todas elas, a "Iron Baby" Gabrielle Roncatto (Pinheiros), que foi a única atleta no país a vencer a mesma prova nos quatro anos que disputou o Troféu Chico Piscina, os 100 peito.

Amanhã, os segredos da maratona aquática e suas maiores representantes.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

Mirem-se no exemplo...


Hoje é Dia Internacional da Mulher, e, conforme foi muito alardeado, com direito até a festa de lançamento e tudo mais, saiu o esperadíssimo "As Meninas de Atenas", documentário produzido pela Swim Brasil que contou a história da odisseia de Joanna Maranhão, Mariana Brochado, Monique Ferreira e Flávia Delaroli, quando elas conseguiram mais finais do que os homens, inclusive uma final 4 x 200 livre. Pra quê medalhas? Essa é a maior vitória.
Seria um sacrilégio republicar o documentário neste site, por tudo que Carolina Moncorvo e Beatriz Nantes fizeram por este doc. Então, cliquem aqui para vê-lo, no link do YouTube.
E feliz dia a todas as nadadoras do mundo!!

sábado, 7 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD? (parte 5 - por Patrícia Angélica)

Estamos na quinta parte do especial de Semana da Mulher do FamilAquatica, que é a republicação da série "Who Run The World?", originalmente um TCC assinado por Patrícia Angélica, do site Loucos por Natação, em 2013. Hoje, publicaremos sobre as aposentadorias da natação, com algumas atualizações.

O ano de 2013 começou com a aposentadoria de pelo menos duas atletas de ponta da natação brasileira. A velocista mineira Flávia Delaroli, do Esporte Clube Pinheiros, anunciou sua saída em novembro de 2012, aos 28 anos, pendurando de vez o maiô em dezembro, após o Mundial de Piscina Curta em Istambul, na Turquia. A carioca e especialista no nado borboleta Gabriella Silva, também do Pinheiros, tornou pública a decisão em janeiro, aos 24 anos recém completados, depois de dois anos sem conseguir treinar adequadamente por causa de repetidas lesões e cirurgias. 
Sem contar a gaúcha e também velocista Michelle Lenhardt, do Fluminense, que comunicou o fim de sua carreira em maio deste ano, aos 32 anos. Para a costista de São José dos Campos Fabiola Molina, de 38 anos, 2013 é o ano de transição entre a vida de atleta e empresária, além do desejo de ser mãe. (N. E.: Fabíola, de fato, abandonou as piscinas num evento épico, em São José dos Campos, em Novembro de 2013, e no ano seguinte realizou o sonho de ser mãe, tendo Louise Maria) Isso significa que a geração de melhores resultados da nossa história está deixando as piscinas. Apenas Joanna Maranhão continua na ativa. 
Flávia teve uma despedida emocionante nas piscinas brasileiras no Open de Natação em Guaratinguetá (SP). Ela admite que a decisão foi tomada principalmente por conta de projetos futuros profissionais e pessoais. Mas ao falar da decisão e de como encarou a natação ao longo de seus 24 anos dentro das piscinas, transparecem as dificuldades por que passou ao longo da carreira. "Quando adolescente, tive que decidir entre os estudos e o esporte, entre me sentir bonita e seguir meu sonho, entre o conforto da minha casa e amparo da minha família ou treinar fora do país com apenas 15 anos de idade. Depois tive que enfrentar o desinteresse pelo esporte feminino que vinha de todos os lados e era bem desanimador", contou ela por e-mail. No entanto, Flavia foi uma das nossas melhores atletas dos últimos anos na modalidade. Hoje, Flavia frequenta curso pré-vestibular, mas ainda não tem certeza sobre o que deseja cursar. (N.E.: Ela cursa nutrição e, atualmente, é mãe de Joaquim) Diz que se tivesse prosseguido com os estudos enquanto era atleta, não sabe o ofício que teria escolhido, mas que seria algum que não lhe tomasse muito tempo. E se há alguns anos a estética das nadadoras era vista como masculinizada, para Flávia, com a moda cada vez maior das academias, hoje seu aspecto físico é normal. "Aprendi a valorizar mais, mas certas coisas como braços e peitoral muito grandes e fortes eu jamais gostei. Sabia que nada disso importava, então apesar de algumas coisas incomodarem, não significavam nada perto do objetivo de atleta". 
Gabriella Silva teve que mudar a técnica de nado borboleta após uma cirurgia no ombro em meados de 2009. No final de 2010, ficou de cama por duas semanas devido a a uma lesão na coluna, que também resultou em procedimento cirúrgico. Tudo isso impediu que a melhor atleta do Brasil no estilo mais difícil da natação treinasse adequadamente. Em 2011 foram poucas as competições em que ela apareceu com destaque. Já em 2012, não foi vista em nenhuma. Com tudo isso, Gabriella decidiu dedicar-se aos estudos. Com apenas 24 anos, vai prestar vestibular para Medicina, "influenciada pelos anos em que tentou entender suas lesões", como escreveu Daniel Takata na edição número 11 da revista Swim Channel de março de 2012. Em entrevista ao SporTV após o anúncio de sua aposentadoria tão precoce, emocionada, a ex-atleta declarou: "Nadar é o que eu mais amo fazer na minha vida. E eu nem sei quem eu sou sem ser a natação". Já Fabiola Molina, aos 38 anos, conta que a decisão de parar aos poucos a partir de 2013 foi fruto de um acordo comum entre ela e o marido, também nadador, Diogo Yabe. "Temos nossos objetivos de casal, de família. Quero me dedicar a outras coisas e não poderia ser atleta competitiva 100%. Vou continuar em algumas competições menores pela Associação Esportiva São José, de São José dos Campos (SP)]. Estou estudando fazer um evento para me despedir da natação e trazer uns amigos estrangeiros". (N.E.: o evento aconteceu e uma foto dele ilustra esta matéria) Além dos projetos pessoais, a melhor costista da história do Brasil (N.E.: antes de Etiene Medeiros), campeã brasileira mais de 50 vezes nas provas de 50m e 100m costas, ainda pensa em deixar um legado cultural para o país através de uma exposição que mostre a evolução da natação ao longo do tempo. "Vamos tentar mostrar, por exemplo, a diferença entre quem ganha uma medalha em Mundial e quem fica nas últimas colocações. A diferença é muito pouca. Vamos propor exercícios, como falar uma palavra tão rápido quanto a diferença que a nadadora que ficou em sétimo e a que ganhou, que é algo em torno de 40 centésimos de segundo, dependendo da prova". É uma forma interessante de tentar aproximar o público dos feitos dos grandes atletas e fazê-los entender a dificuldade do esporte de alta performance. 
 Michelle Lenhardt anunciou no Facebook, no dia 13 de maio de 2013, que estava "pendurando o maiô". Depois de um início de ano conturbado, após a dispensa do Esporte Clube Pinheiros e a difícil negociação com outros clubes, ela chegou a competir no Troféu Maria Lenk deste ano pelo Fluminense. A agora ex-atleta de 33 anos é formada em Publicidade pela PUC-RS e promete não se afastar definitivamente das bordas da piscina, pois vai a partir de agora dar assessoria direta para atletas (N.E.: atualmente ela mora em Auburn com o já marido Bruno Fratus, sendo também seu braço direito). Segundo ela, não se sentia mais feliz competindo. "Acredito que estamos na vida para sermos felizes, então pretendo continuar buscando minha felicidade em outros caminhos".

Após a publicação original desta matéria, tivemos mais aposentadorias emocionantes. Em Dezembro de 2013, no Open de Porto Alegre, penduraram o maiô Rebeca Bretanha, por projetos pessoais, Larissa Cieslak, visando uma carreira na engenharia, e Tatiana Lemos Barbosa, hoje treinadora de natação nos Estados Unidos. Em 2014, mais aposentadorias: Beatriz Bullo, que defendia a Unisanta, e agora fará carreira no Direito; e Carolina Mussi e Thalandra Borges, ambas ex-Corinthians, para novas jornadas pessoais. Sem contar que Joanna Maranhão mesma chegou a aposentar-se, mas voltou atrás e o resto é história.
Amanhã, Dia Internacional da Mulher, a serie segue com a nova geração da natação feminina.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

sexta-feira, 6 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD? (parte 4 - por Patrícia Angélica)


Na quarta parte da série especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, Patrícia Angélica faz uma análise da separação entre seleções e a criação de uma equipe especialmente para cuidar das nossas meninas. Lembrando que esta é uma série originalmente publicada no Loucos por Natação, em 2013.

Durante o Troféu José Finkel, em setembro de 2012, na piscina do clube SESI-SP, Fernando Vanzella (N.E.: foto acima tirada por este repórter durante o Torneio Regional de Santos), hoje treinador da equipe, foi convidado pelo presidente da Confederação Brasileira de Desportes Aquáticos (CBDA), Coaracy Nunes, para ser o novo head coach na Seleção Brasileira de Natação Feminina. Poucos meses depois de aceitar o convite, Vanzella aproveitou o Mundial de Piscina Curta em Istambul, em dezembro, como campo de observação para a nova função.
Todavia, apenas designar um treinador para o momento em que as melhores nadadoras do país se juntam em uma Seleção não é o bastante. O que a CBDA está fazendo na prática? O que pensa a comunidade aquática?
A primeira atitude da Confederação a respeito dessa divisão foi pré-classificar todos os revezamentos femininos (4x100m livre, 4x100m medley e 4x200m livre) para a próxima grande competição, o Mundial de Piscina Longa, que acontece em Barcelona (ESP), na última semana de agosto. Antes, apenas os revezamentos (nesse caso, agregado entre os quatro melhores tempos das prova de 100m livre, 100m estilos ou 200m livre) que conseguissem estar entre os 12 melhores tempos do mundo pelo ranking mundial do ano anterior competiam.
Enquanto Ricardo de Moura, supervisor técnico da CBDA, considera a decisão uma forma de levar as atletas a uma experiência internacional, outros, como Alex Pussieldi, pensam o contrário. "Elas não têm nível para isso [competir em plano de igualdade com as potências do esporte]. Ninguém ganha experiência indo para campeonato mundial sem condição de competir em nível mundial. A partir do momento que as coisas começam a ficar mais fáceis, você começa a se acomodar".
Outro que expõe uma visão crítica sobre essa divisão é João Reinaldo, o Nikita, treinador de Joanna Maranhão no Clube Português do Recife (N.E.: atualmente, o treinador de Joanna é André Amendoim, no Pinheiros), que diz apenas ter "ouvido falar de uma divisão" e ainda critica a escolha de um técnico que está dentro de um clube. Fernando Vanzella, além de treinador principal da seleção feminina, exerce a mesma função no clube SESI-SP. "Deveria haver um técnico sem nenhum vínculo e realmente participando, acompanhando o treinamento, viajando entre os estados, vendo não só os que estão no topo, mas aqueles que têm mais chance de chegar lá", disse.
Uma cobrança constante da comunidade aquática é por viagens de treinamento e competição. "Deveriam reunir essas meninas que estão na seleção pra treinar juntas e ter um técnico focado na natação feminina", defende a ex-nadadora e produtora do SporTV Mariana Brochado.
Para criar uma identificação maior entre essas atletas e elevá-las a um patamar de competitividade, é necessário que sejam feitas mais clínicas (como são chamados os training camps realizados pelo CBDA no Brasil), como a realizada entre os dias 18 e 23 de fevereiro de 2013, em Brasília. As atletas que participaram gostaram da experiência, principalmente pela oportunidade de "conviver por algum tempo com atletas de outras faixas etárias e outros clubes". Beatriz Travalon, campeã brasileira dos 100m nado de peito, e uma das mais jovens na seleção, justifica: "Você só sabe das dificuldades que a pessoa tem quando você está no treino. Ver na competição é uma coisa, conviver é diferente".
No entanto, para Fabiola Molina, uma das mais bem sucedidas nadadoras brasileiras (N.E.: aposentou-se em 2013), a clínica acrescentou pouco para as atletas mais experientes. Fabíola, que está em transição entre a carreira esportiva e a de empresária, foi uma das palestrantes. Para ela, faltaram na clínica coisas essenciais em um campo de treinamento, como a filmagem biomecânica para detectar possíveis erros de técnica subaquática do atleta. Além disso, a data escolhida pela CBDA também teria coincidido com viagens de algumas equipes (como a do Minas, que não pôde enviar atletas pois estava na Austrália).
O sentimento é de satisfação entre as atletas beneficiadas pelo novo projeto da Confederação. "O investimento diferenciado que a CBDA está fazendo [na natação feminina] daqui para frente vai só melhorar", comemora Graciele Herrmann. A mesma sensação é compartilhada pela nadadora Etiene Medeiros: "A gente vê o exemplo, não só na natação, mas em outros esportes, como o judô, que dá certo separar o masculino do feminino. Espero que dê certo e que a natação feminina evolua".
Já Arilson Soares toca em outro ponto: o planejamento. O treinador considera fundamental monitorar os treinos, controlar a carga de exercícios das atletas e conhecer os seus picos hormonais para ajustar a carga de treinamento dentro e fora d'água. Para ele, quando se percebe que algo está errado, deve-se abandonar o planejamento e começar tudo do zero. "Se algo não funcionou em três meses, para e tenta outra coisa. Não tem continuidade. Quando algo não funciona, temos que reavaliar e define quais são as competições que vão servir de avaliação. O que importa é o resultado na competição".
Esse parece um receio muito grande de toda a comunidade aquática: a continuidade do projeto. Djan Madruga, medalhista olímpico no revezamento 4x200m livre nos Jogos Olímpicos de Moscou 1980, em bate papo durante o Troféu Maria Lenk, em abril de 2013, acredita que, após 2016, é preciso ver o que deu certo e ver como continuar. Para o ex-atleta e hoje diretor executivo da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), uma brasileira pode ganhar medalha nos Jogos Olímpicos, mas isso não garante a melhora estrutural da modalidade: "Não é impossível uma menina conseguir medalha olímpica, mas isso não quer dizer que tenha havido uma melhora geral da natação feminina ou que isso reflita a realidade da natação brasileira".
Ricardo de Moura explica, em entrevista concedida na mesma competição, que a melhor forma de avaliar o processo é através do ranking mundial, em que os nadadores e nadadoras são posicionados de acordo com os tempos que fazem em suas respectivas provas. "Se o atleta estiver entre os dez primeiros do mundo no ano que antecede os Jogos Olímpicos, há 80% de chance de ganhar medalha". A meta é ambiciosa. E para atingir essa performance, a meta é colocar mais atletas entre as 150 melhores até o final de 2013.
A natação é um esporte em que provas masculinas e femininas ocorrem todas juntas durante as competições, e, da mesma forma, os atletas de ambos os sexos ficam hospedados no mesmo hotel. Atletas costumam namorar entre si, sejam do mesmo clube ou de clubes diferentes. De acordo com a nadadora Joanna Maranhão, não existem restrições à prática sexual relacionadas à concentração, como em outros esportes, o futebol, por exemplo. "O que influencia é sua mente e de um modo geral atletas de esporte individual não têm essa postura porque pensam muito em si", justifica Joanna. Assim, as relações sexuais acontecem nos locais de hospedagem, principalmente no fim dos eventos, mas os treinadores não ficam nada contentes quando descobrem as aventuras de seus atletas. 
O treinador Alberto Silva é hoje o responsável pelos nadadores na Seleção Brasileira (N.E.: ele não o é mais desde o final de 2014 e atualmente é head coach no Paineiras do Morumby), mas foi head coach do Esporte Clube Pinheiros durante sete anos e lidava com as meninas. Em conversa por Skype, o técnico detecta o principal problema com relação à prática sexual antes das competições: "lidamos muitas vezes com menores de idade e precisamos manter a disciplina e a ordem. Além disso os pais confiam seus filhos aos técnicos e não podemos decepcioná-los". Albertinho – como é conhecido na natação – garante que nunca flagrou ninguém desobedecendo, mas admite que, se pegasse, não saberia o que fazer. Diz apenas que o problema seria resolvido internamente no clube e na equipe, sem expor os atletas envolvidos.

Amanhã, a quinta parte, falando sobre aposentadorias, com algumas atualizações.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

WHO RUN THE WORLD? (parte 3 - por Patrícia Angélica)


Nesta terceira parte da nossa Série Especial pela semana da mulher, Patrícia Angélica, com a ajuda de especialistas, mostra qual o segredo para a melhora da natação feminina no país.

Se o Brasil demorou 56 anos para ter novas finalistas olímpicas na natação feminina, podemos dizer que desde 2004 temos uma safra razoável, porém muito irregular. De três finais femininas em Atenas-2004, os resultados caíram para apenas uma em Pequim-2008 e nenhuma em Londres-2012.
Para alcançar índices mais ambiciosos, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, decidiu dividir a natação entre dois treinadores logo após os Jogos Olímpicos de 2012. Um especificamente para o feminino, Fernando Vanzella, e outro para o masculino. Porém, é consenso entre os especialistas que essa divisão é tão somente o primeiro passo. Outras ações são urgentes para dar mais força à natação feminina.
A maioria dos esportes brasileiros carece de trabalho de base, e não é diferente com a natação. A modalidade sobrevive de talentos individuais. É preciso um trabalho aprofundado de estímulo às categorias iniciais do esporte. Só assim se conseguirá  massa maior de praticantes ao longo do tempo e dessa massa será extraído muito mais talentos para formar grupos de atletas de alta performance e superar a baixa de desempenho das meninas.
O treinador Alex Pussieldi, comentarista de natação do canal especializado SporTV, explica que o problema precisa ser diagnosticado localmente e em todas as categorias: "A gente está ficando para trás [na natação feminina] e isso é um problema estrutural e organizacional. Quem não quer ver está fazendo com que isso continue e a gente fique cada vez mais longe. Vai ser cada vez mais difícil conseguir se igualar ao nível internacional".
Para Arilson Soares, técnico especialista em nado de peito, um ponto importante seria aumentar a participação em competições de alto nível de nossas nadadoras. "As atletas lá fora estão num nível de competitividade muito maior do que a gente aqui. Elas competem muito novas, na escola, na faculdade. Nesse caso, a competitividade faz a diferença para essas meninas terem uma atitude melhor com relação ao treino, porque sabem que é o treino que vai levar a uma boa competição".
Talvez por isso algumas atletas se sentem intimidadas em torneios internacionais, conta Daynara de Paula, representante do Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 nos 100m borboleta. "Numa competição internacional, eu não sei como elas são, não sei como elas nadam. Sei o tempo delas, que são muito mais fortes que o meu".
Atletas, ex-atletas e técnicos têm opinião semelhante sobre outro passo importante para a guinada da natação feminina: excursionar por competições e training camps ao redor do mundo. "Elas têm que ir para fora, participar do circuito europeu, dos Grand Prix nos Estados Unidos e ter um período de treino lá fora pra ver o que, de fato, o pessoal lá faz", afirma Monique Ferreira, ex-nadadora e hoje integrante da Unidade de Performance Esportiva do COB.
A ex-técnica Rosane Carneiro, única mulher a integrar a comissão técnica olímpica do Brasil - Pequim-2008 - critica o formato de incentivo esportivo, que centraliza o protagonismo na formação e manutenção dos atletas nos clubes. Para ela, esse é um dos principais problemas da natação brasileira: "Infelizmente, a CBDA, as federações e os clubes não estão conseguindo reter seus poucos atletas. Ninguém forma mais nada, não se tem material humano para trabalhar para o futuro. E até 2012 os atletas inflacionaram o mercado com as ajudas de custo e salários". Segundo Rosane, o mais importante é fazer os atletas competirem mais, pois no Brasil só há três campeonatos para os nadadores sêniores. Na Europa e Estados Unidos há muitas competições em que esses atletas poderiam se aprimorar e ganhar experiência.
No ciclo olímpico que se iniciou em 2013 e vai até os Jogos de 2016, no Rio, a natação brasileira tem quatro competições internacionais de peso: dois mundiais de piscina longa (em 2013, em Barcelona, na Espanha; e 2015, em Kazan, na Rússia), e um mundial de piscina curta em 2014 (em Doha, no Catar). Também em 2014 haverá o torneio Pan-Pacífico, do qual o Brasil é convidado (na Austrália. Há outros eventos de menor relevância, que muitas vezes são usados como treinamento para campeonatos principais, e que são escolhidos a cada temporada pelo atleta e a comissão técnica: os Grand Prix norte-americanos, Circuito Mare Nostrum (que acontece no Principado de Mônaco; em Barcelona, na Espanha; e em Canet, na França), Open da França, Troféu Sette Colli (na Itália), entre outros.
O departamento financeiro da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos forneceu dois balancetes especificando os gastos com competições nacionais e internacionais e treinamentos específicos das seleções. No ano pré-olímpico de 2011,  foram empregados R$ 2.978.717,97 neste tipo de ação. Já em 2012 o valor quase dobrou: R$ 5.368.615,78. Estes R$ 2 milhões a mais no segundo ano são explicados pelo fato de ter sido o ano da Olimpíada de Londres. Para 2013, a CBDA tem previstos R$ 8.674.818,00 de despesas, divididas em eventos nacionais e internacionais de natação. O montante inclui também o patrocínio direto aos atletas. Tais recursos são obtidos através do patrocínio da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), Bradesco e Sadia, além dos recursos provenientes da Lei Agnelo Piva. Esta lei estabelece que 2% da arrecadação das Loterias Federais são direcionados aos comitês olímpico e paralímpico brasileiros.
Só os Correios, maior patrocinador da CBDA, contribuem anualmente com R$ 23 milhões para as cinco modalidades abrigadas na entidade: além da natação em piscina e em águas abertas, há também o nado sincronizado, os saltos ornamentais e o pólo aquático.  O contrato, firmado em  outubro de 2012, tem vigência de dois anos. Hermano Aragão, analista da área de gestão de patrocínio esportivo da estatal, explica que durante a negociação do contrato a entidade esportiva apresentou uma planilha com estimativas de custo. O contrato atual instituiu o Plano Brasil Medalhas, do Ministério do Esporte, que substitui parte dos valores empregados em patrocínio direto aos atletas, que são contratos firmados diretamente entre a Confederação e alguns esportistas para recebimento de verba dos Correios. Antes do programa do Governo Federal, a empresa pública destinava cerca de 15% do valor total dos contratos para apoio aos atletas. Agora este valor está entre 2% e 3%.
Um dos principais requisitos para um nadador fazer parte do Plano Brasil Medalhas é estar entre os 20 melhores do mundo em suas provas. A maior parte dos atletas que recebem apoio foram incluídos no projeto, mas o patrocínio direto foi mantido para aqueles que não preenchem este requisito. O programa do Ministério do Esporte para a CBDA, com aporte financeiro dos Correios, inclui o valor de R$ 7 milhões por ano para patrocínio de 15 atletas, sendo que nenhum deles é da natação feminina. Já, dentro do mesmo Plano destinado às maratonas aquáticas, o valor anual é de R$ 2,8 milhões e aqui apenas três atletas recebem o auxílio financeiro. Duas delas são mulheres: Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto.

Confira, ainda hoje, a parte 4.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos por Natação e Criminal Minds BR)

quinta-feira, 5 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD? (parte 2 - por Patrícia Angélica)


Na parte 2 da nossa série especial em homenagem à Semana da Mulher, Patrícia Angélica conta porque a natação brasileira feminina ainda está longe do patamar de grandes potências, como a norte-americana, europeia e, especialmente, a australiana, com a ajuda de especialistas da natação, como o Coach Alexandre Pussieldi e Arilson Soares:

A natação brasileira começou a se destacar no cenário nacional na década de 1930 com duas mulheres: Maria Lenk, primeira mulher latino-americana a participar de Jogos Olímpicos em Los Angeles-1932 e ex-recordista das provas de 200m e 400m peito (esta última já não existe mais); e Piedade Coutinho, dona do melhor resultado de uma mulher brasileira em Jogos Olímpicos, o quinto lugar nos 400m livre em Berlim-1936. Depois delas, poucas brasileiras mereceram destaque semelhante em águas internacionais. Patricia Amorim, por exemplo, não passou do 11º lugar com o revezamento 4x100m livre nos Jogos Olimpicos de Seul, na Coréia do Sul, em 1988. Para encontrar nadadoras se destacando em nível olímpico, saltamos do ano de 1948 e vamos para o ano de 2004. Um gap de nada mais, nada menos do que 56 anos. Na edição de 2004, quando o COI trouxe os Jogos para Atenas, cidade onde os Jogos nasceram na Antiguidade e ressurgiram na Era Moderna, em 1894, o Brasil teve cinco atletas presentes em três finais olímpicas. As estrelas desse salto de qualidade foram Flávia Delaroli (8º nos 50m livre), Joanna Maranhão (5º lugar nos 400m medley e 7º com o revezamento 4x200m livre), Mariana Brochado, Monique Ferreira e Paula Baracho (as três no mesmo revezamento que Joanna). A partir daí a natação feminina foi-se aprimorando, mas ainda está longe de atingir o mesmo nível internacional que temos no masculino, com recordes mundiais, campeãs mundiais de piscina longa e curta (N.E.: muito embora já tenhamos uma recordista e campeã, Etiene Medeiros), e medalhistas olímpicas.
E a pergunta que nunca se cala é... por quê?
Especialistas e treinadores atribuem o desempenho tímido a um problema histórico-cultural. "As mulheres tiveram que vencer uma série de barreiras até aparecer no cenário nacional", argumenta o supervisor técnico da natação na CBDA, Ricardo de Moura, em entrevista realizada durante o Troféu Maria Lenk, na última semana de abril de 2013.
Que barreiras são essas? Uma delas diz respeito à força física. A natação é um esporte que demanda explosão e força, daí a necessidade de muito trabalho de musculação. Fabiola Molina observa, em conversa durante a competição, que sempre houve um mito de que a natação deixava a mulher forte e masculina. "As pessoas ainda acham que mulher nadadora tem as costas largas. Algumas nadadoras se recusavam há alguns anos a fazer exercícios fora d'água justamente por medo de ficar com aparência masculinizada, o que não acontece com tanta frequência quanto se imagina". No entanto, esses problemas não estão apenas nas atletas e no trabalho dentro ou fora das piscinas. Muitos problemas são também creditados aos próprios treinadores, à estrutura e à falta de apoio institucional.
O treinador Alexandre Pussieldi, técnico em Fort Lauderdale (EUA) (N.E.: recentemente ele voltou a morar no Brasil) e comentarista da SporTV, em bate-papo também no Troféu Maria Lenk, acredita que "está faltando um trabalho um pouco mais profundo, mais duro até. Eu acho que as meninas não estão treinando o suficiente. Não acho que as mulheres do Brasil sejam piores do as de qualquer outro lugar. Apenas a mentalidade de treinamento não é adequada às condições pra se competir internacionalmente".
Na visão de Arilson Soares, ex-treinador do Esporte Clube Pinheiros, hoje no ADN Natação, da Itália (N.E.: atualmente técnico de Cesar Cielo no Minas), treinar mulheres exige uma atenção especial com a parte biológica e hormonal. "O controle hormonal para as mulheres é muito mais difícil. Às vezes elas estão em um pico de força e conseguem uma boa intensidade de treino. Em outros momentos isso se inverte e elas começam a ficar um pouco 'femininas' demais, o que não é bom pra quem quer fazer um esporte de alto rendimento". Confirmando essa ideia, João Reinaldo, técnico de Joanna Maranhão, diz que o principal segredo para se treinar meninas é uma atenção psicológica especial: "A maneira de tratar, de acompanhar o treinamento, o modo de falar e até de cobrar fazem a diferença em um treinamento dado a uma garota na natação."
A ex-treinadora Rosane Carneiro, hoje profissional de gestão de marketing esportivo, já teve Joanna Maranhão (na foto desta matéria) como pupila. Ela não vê luz no fim do túnel a curto e médio prazos: "Joanna pode nadar até 40 anos (hoje a atleta tem 26) que ainda vai fazer o feijão com arroz dela no Brasil". E as provas dos campeonatos brasileiros comprovam isso. Joanna faz tempos na casa dos 4min40s nos 400m medley há nove anos e continua ganhando das adversárias com quase meia piscina de vantagem. O recorde brasileiro desta prova, desde os Jogos Olímpicos de 2004, é de 4min40s00 e pertence a Joanna Maranhão é de 4:40.00, enquanto o recorde mundial da é de 4min28s32 batido pela chinesa Shiwen Ye, de 16 anos, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Como mudar todos esses fatores que parecem tão arraigados na nossa cultura e história aquáticas?

Confira amanhã, na parte 3, a opinião dos especialistas para a melhora da natação feminina.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos Por Natação e Criminal Minds BR

WHO RUN THE WORLD? (parte 1 - por Patrícia Angélica)


O hit da popstar norte-americana Beyoncé vem a calhar no tema desta série de reportagens sobre a natação feminina, originalmente publicada pelo Loucos Por Natação, em 2013. Este é foi trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense apresentado no primeiro semestre de 2013 pela nossa companheira e amiga Patrícia Angélica, que, com sua autorização, passamos a reproduzir a partir de hoje, como homenagem pela semana internacional da mulher e agradecimento pelas 3000 visitas que o FamilAquatica alcançou em sua nova fase, iniciada em Janeiro de 2015.

"Quem comanda o mundo? Garotas!" é o que diz o título da música de Queen Bey.

Angela Merkel é chanceler da Alemanha desde 2005, a economia mais forte da Europa; e o Fundo Monetário Internacional tem como diretora-gerente a francesa Christine Lagarde em mandato assumido em 2011, sendo a primeira mulher nesta função na história do FMI. A norte-americana Condoleezza Rice foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Estado, no mandato do ex-presidente George W. Bush, entre 2005 e 2009; Hillary Clinton foi senadora pelo Estado de Nova York entre 2001 e 2009, assumiu a Secretaria de Estado no primeiro mandato de Barack Obama e é uma das pré-candidatas mais cotadas do Partido Democrata à sucessão de Obama em 2016. No Brasil, a presidente Dilma Rousseff foi eleita pela revista Forbes como a segunda mulher mais poderosa do mundo. Nos esportes as garotas do Brasil também ampliam sua participação. Em 2011, Fabiana Murer ganhou uma inédita medalha de ouro no Mundial de Atletismo de Daegu (Coreia do Sul) no salto com vara. O vôlei feminino, depois de anos como patinho feio e tachado de "amarelão" no esporte nacional, passa por um momento de hegemonia como bi-campeão olímpico (nas edições de 2008, em Pequim, na China, e 2012, em Londres, na Inglaterra) e com cinco títulos do Grand Prix desde 2004 (2004, 2005, 2006, 2008 e 2009), país que mais vezes venceu a competição nos anos 2000. Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, as atletas individuais do Brasil marcaram presença. A pentatleta Yane Marques ganhou uma medalha de bronze no pentatlo moderno, feito inédito no país. Também com um bronze, a pugilista Adriana Araújo entrou para a história do boxe olímpico nacional com a medalha nunca antes conquistada por uma mulher na modalidade. A medalha de Adriana foi a centésima conquistada pelo Brasil na História do Olimpismo Moderno. Impossível esquecer da emoção da medalha de ouro da piauiense Sarah Menezes no judô. Das 17 medalhas obtidas pelo Brasil nesta edição olímpica, seis foram em modalidades femininas. Das três premiações douradas, duas foram obtidas por mulheres. Além de Sarah e do vôlei feminino já citados, a outra medalha de ouro veio com o ginasta Arthur Zanetti na prova de argolas.
Daí a iniciativa de produzir um panorama geral sobre a natação feminina do Brasil. O objetivo é traçar um painel sobre as dificuldades das nadadoras brasileiras de alcançar o topo, a estratégia para se chegar lá, a diferença entre o desempenho das mulheres das piscinas e das águas abertas, como as atletas se relacionam com a imprensa, a divisão entre naipe masculino e feminino que a CBDA promove a Seleção, as mulheres treinadoras e um breve histórico de algumas das protagonistas da história aquática do Brasil. Tudo isso com uma análise profunda, que ouviu técnicos, atletas, jornalistas, dirigentes e especialistas para tentar entender a modalidade e as transformações por que ela vem passando. Outro momento importante que acontece enquanto esse trabalho é escrito é a possibilidade de perda das piscinas do Parque Aquático Júlio Delamare, que faz parte do Complexo do Maracanã. O consórcio que ganhou a concessão do Estádio Mario Filho quer demolir o Estádio de Atletismo Celio de Barros e o Parque Aquático para construir... estacionamentos e lojas. A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, o IPHAN, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj) e outras entidades ligadas aos dois complexos esportivos lutam para mantê-los de pé, pois ambos servem de local de treinamento e aulas gratuitas para milhares de pessoas carentes de todas as idades. No dia 29 de junho, no entanto, o governador do estado do Rio de Janeiro, pôs fim ao impasse e usou o seu Twitter para declarar que o Parque Aquático seria mantido. 
Como se vê, o atletismo e os esportes aquáticos são obrigados a enfrentar, além de adversários mais bem preparados e com mais recursos, outros obstáculos impostos pela ganância de empresários e o descaso das autoridades do estado.

Ainda hoje, a parte 2.

(Patrícia Angélica é jornalista, responsável pelos blogs Loucos Por Natação e Criminal Minds BR

quarta-feira, 4 de março de 2015

WHO RUN THE WORLD?: Especial Semana da Mulher

A natação feminina, não é segredo para ninguém, tem crescido muito nos últimos anos. Quem não se lembra do protesto que as nadadoras fizeram naquele Troféu Brasil de 1996, em Belo Horizonte, quando entraram com camisetas onde se lia: "poucos centésimos afogaram nosso sonho". Hoje, não existem mais centésimos para afogar o sonho de nenhuma delas.
Temos uma recordista mundial nos 50 costas (Etiene Medeiros), tivemos meninas a poucos passos do pódio em Mundiais (a própria Etiene, Alessandra Marchioro e Natalia de Luccas) e a tendência é melhorar. A separação entre seleções, implantada recentemente pela CBDA, tem tido efeito positivo pelas nossas nadadoras.
Mas é preciso ainda que muitas mudanças sejam feitas e que nossas nadadoras parem de ser vistas como "gostosas", ou algo parecido. Temos de ver nossas atletas pelos resultados, não pela beleza, que, convenhamos, não dá para dizer que elas não tem.
Nisso, nesta Semana Internacional da Mulher, vamos republicar o Trabalho de Conclusão de Curso da nossa amiga, a jornalista Patrícia Angélica (do blog Loucos por Natação), falando justamente sobre a história, a evolução e algumas das grandes nadadoras que marcaram o país, com algumas atualizações deste repórter.
A partir de amanhã, portanto, e até o dia 16 de Março, vamos publicar capítulos que contam como foi a evolução feminina nas águas. Aguardem e confiem. E a nossa homenagem para elas, que muito fizeram por todos nós.

(com agradecimentos à Patrícia Angélica - foto da CBDA)